sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O cartomante


Tal qual a cartomante que mudaria a vida de Macabéa em “A Hora da Estrela”, o adivinho estava disposto a ter a atenção de Julia naquela manhã. A moça tinha olhar sonolento, mas preocupado, e uma aura de quem estava tensa e precisando de cuidados. Parecia estar chegando aos 30, e com esse olhar, tinha o perfil típico de quem procurava os trabalhos que ele prestava. Será que já tinha casado? Mulher que não casou até essa idade também gosta de procurar cartomantes. E arriscou pedir uma informação para a moça.

“Por favor, aonde fica a estação Trianon?”, ouviu Julia. Ela estranhou a pergunta, porque ele estava quase em frente à estação, e começou a balbuciar uma resposta, até ouvir uma saraivada de perguntas com respostas. “Você tem uma santa muito bonita na cabeça, mas você é infeliz no amor, não é? É sim, a gente vê. Você foi traída, não está com quem ama, perdeu ele pra outra e sua mãe está doente”.

Aquela metralhadora verbal não fazia sentido para a moça, que não abandonava a expressão blasé. O que foi o fim para o Cartomante. “É uma pena que vocês não acreditam na gente. Cuide de sua mãe, ela precisa. E você precisa fazer um trabalho pra sua vida se abrir para o amor”. A expressão de Julia mudou e ela teve vontade de enfiar o guarda-chuva na cabeça do Cartomante. Mas limitou-se a dizer: “A estação Trianon a alguns passos daqui. Tenha um bom dia”.

Apesar do olhar blasé, algumas coisas ecoaram no peito de Julia naquela manhã. Era fato que ela não tinha um amor e que ela já havia sido traída. Mas quem nunca foi traído na vida, especialmente perto dos 30?

Naquele dia, Julia fez um desafio para o universo. Se nada em sua vida acontecesse em um mês, ela procuraria um cartomante. Mas não aquele picareta, que tinha roubado sua paz. 

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