Tal qual a cartomante que mudaria a vida de Macabéa em “A
Hora da Estrela”, o adivinho estava disposto a ter a atenção de Julia naquela
manhã. A moça tinha olhar sonolento, mas preocupado, e uma aura de quem estava
tensa e precisando de cuidados. Parecia estar chegando aos 30, e com esse
olhar, tinha o perfil típico de quem procurava os trabalhos que ele prestava.
Será que já tinha casado? Mulher que não casou até essa idade também gosta de
procurar cartomantes. E arriscou pedir uma informação para a moça.
“Por favor, aonde fica a estação Trianon?”, ouviu Julia. Ela
estranhou a pergunta, porque ele estava quase em frente à estação, e começou a
balbuciar uma resposta, até ouvir uma saraivada de perguntas com respostas. “Você
tem uma santa muito bonita na cabeça, mas você é infeliz no amor, não é? É sim,
a gente vê. Você foi traída, não está com quem ama, perdeu ele pra outra e sua
mãe está doente”.
Aquela metralhadora verbal não fazia sentido para a moça, que
não abandonava a expressão blasé. O que foi o fim para o Cartomante. “É uma
pena que vocês não acreditam na gente. Cuide de sua mãe, ela precisa. E você
precisa fazer um trabalho pra sua vida se abrir para o amor”. A expressão de
Julia mudou e ela teve vontade de enfiar o guarda-chuva na cabeça do
Cartomante. Mas limitou-se a dizer: “A estação Trianon a alguns passos daqui.
Tenha um bom dia”.
Apesar do olhar blasé, algumas coisas ecoaram no peito de
Julia naquela manhã. Era fato que ela não tinha um amor e que ela já havia sido
traída. Mas quem nunca foi traído na vida, especialmente perto dos 30?
Naquele dia, Julia fez um desafio para o universo. Se nada
em sua vida acontecesse em um mês, ela procuraria um cartomante. Mas não aquele
picareta, que tinha roubado sua paz.
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