Julia transparecia calma e equilíbrio. Equilibrada, de fato,
ela era. Mas sua calma era apenas aparente. Os gestos educados e o tom de voz
baixo escondiam um turbilhão de dúvidas multiplicadas pela ansiedade que volta
e meia invadia seu peito, especialmente em situações nas quais não era mais
possível ter nenhum controle. Como os relacionamentos afetivos.
Todos diziam que ela era bonita e inteligente. Teve dois
grandes amores na vida. Com o primeiro deles, nutriu ódio, rancor e, por
último, desprezo, quando percebeu que não valia mais a pena cultivar nada. Por
outro, nutriu algo muito mais platônico do que prático. Via sinais em tudo, mas
não queria transparecer nada, porque acreditava já ter sofrido tudo o que podia
com o amor anterior.
A vontade de não transparecer nada prevaleceu e, claro, o
segundo amor virou amigo, como tantos outros amores possíveis que entraram em
seu círculo de amizades. Julia sempre foi boa ouvinte, e descobria que tinha
perdido o amor possível quando os candidatos começavam a confidenciar sobre
outras mulheres. Engolia a seco, mas seguia ouvindo. Enquanto isso,
martelava-se mentalmente sobre mais uma derrota. Mais um amor perdido, mais uma
amizade no seu círculo.
Distribuía conselhos entre as amigas, que sempre a
procuravam. Mas quase nunca usufruía de suas próprias dicas. Tal qual um padre
que celebra muitos casamentos, Julia sabia de vários sinais que indicariam se
as relações teriam futuro ou não. E já havia se conformado com um celibato, tal
como os padres. Já estava acreditando que não encontraria alguém que a dissesse
as coisas lindas que gostaria de ouvir. Que a mandasse flores e que dissesse
que a amava – isso nunca havia acontecido com Julia. E essa era outra dor que
ela engolia a seco, em cima de um salto imaginário que a levava pra longe e para
o alto. Tão alto que ninguém a alcançava.