Luis era considerado muito inteligente por qualquer pessoa
que o conhecesse e reunia todos os atributos visíveis para isso. Era bom de
matemática na época da escola, tirava as melhores notas na faculdade e se
tornou um profissional muito bem sucedido em uma área dominada pelos famosos
nerds: a computação. Na realidade, o nome certo era Tecnologia da Informação,
TI ou IT no exterior. Mas, para a família e os amigos leigos, continuava sendo
computação.
Gostava de festas e de estar entre pessoas. Mas não
conseguia fazer amigos com facilidade. Era quieto, tímido, e pensava muito
antes de falar – como todos os quietos e tímidos. Achava que uma câmera
brotaria do chão assim que ele falasse uma bobagem, transmitindo mundialmente a
asneira dita, ou a piada sem graça. Por isso, pensava antes de dizer uma frase
em uma turma maior. Pensava tanto que não dizia. De tanto pensar, geralmente
via outras pessoas arrancarem risos da turma ao falarem exatamente o que ele
tinha pensado. E se martirizava ainda mais pela timidez idiota.
Tanta vergonha escondia um rico conteúdo, adquirido com
leitura, filmes, músicas e viagens. Os poucos (e bons) amigos sabiam de tudo
isso, e os melhores não zombavam desse traço. Começar era difícil, todos
sabiam. Então, o melhor jeito de se preparar caso arriscasse um começo (de
conversa, de olhar, de história) era ter conteúdo. Em algum momento, isso daria
certo.
Pra piorar, bebia pouco. Não conseguia passar de um copo de
qualquer drinque. Uns goles a mais de cidra em uma passagem de ano, durante a
adolescência, o traumatizaram contra os efeitos do álcool dali em diante.
Então, para não ser pressionado, preferia ficar com um copo só a noite toda.
Mas naquela festa, via que copos não eram problema para
Julia. Aquela moça de traços delicados sabia a arte de esvaziá-los sem
perder a compostura. Transitava por toda a festa, parecia conhecer a maioria dos
convidados, ria, dançava, e até com ele ela já tinha conversado.
Julia também sabia que começar uma conversa era difícil, uma
arte para poucos. Sua família dominava essa arte. O que a levou a aprender a
puxar papo quando necessário. Ela também sabia o que era ser considerada
tímida, especialmente perto dos parentes faladores. Aliás, era até mais cômodo
parecer quieta perto deles. A disputa seria desleal.
Enquanto isso, Luis se arrependia de não ter dado respostas
mais elaboradas, que poderiam prender a moça de cabelos encaracolados mais
alguns minutos diante de seus olhos.