Julia gostava de música como mulher gosta de chocolate em
TPM. Muitos momentos da vida para ela tinham trilhas sonoras. Ainda que os acontecimentos
tivessem ocorrido em silêncio ou em um barulho infernal, ou com muitas pessoas
conversando ao mesmo tempo. Para aquela época boa da pré-adolescência, ela
lembrava de uma música brega do Jon Secada. Não tem importância o fato de o primeiro
beijo ter acontecido atrás da escola, ao som do caminhão de gás. Assim como a
oitava série, para ela, tinha a lembrança de Mr Jones, do Couting Cross. “When
everybody loves you / You can never be lonely” era o melhor trecho, que ela
descobriu o significado após ver o dicionário.
A memória auditiva e afetiva seguiu acompanhando a jovem
adolescente, que se tornou uma adulta que sentia conforto ao ouvir algumas
trilhas sonoras. Sentia-se amparada por alguns CDs, e gostava de repetir como
mantras alguns refrães que eram mantras de fato “nothing is gonna change my
world”, dos Beatles.
Ela aprendeu a amar Beatles tardiamente, e com uma forcinha
das releituras gravadas para a trilha sonora do filme "I am Sam". “Two of us” tinha a
letra que ela sonhava para um relacionamento que ela considerava perfeito. E a
voz do lindíssimo Eddie Vedder com “You´ve got to hide your love away” parecia abraçá-la
quando ela se culpava por não conseguir terminar um texto que deveria ter sido
entregue no dia anterior.
Mas tinha uma música que Julia tinha até medo de ouvir. Era “Fidelity”,
de Regina Spektor. “I´ve never loved nobody fully / Always one foot on the
ground” era a descrição dela própria e de seu modo de agir com esse terreno tão
amedrontador. “And I protected my heart trully” era a coisa mais verdadeira a
respeito de si própria que ela já tinha ouvido em uma música. E ela de verdade
ouvia todas aquelas vozes na cabeça, tal qual a música dizia em inglês, e se
perguntava quando é que ia viver uma história linda, não como a de novelas ou
contos de fada, mas talvez como a dos filmes bacanas e, melhor ainda, como a
que as amigas estavam vivendo.
No meio de tantas vozes, Luis descobriu que Julia gostava de
música. E passou a compartilhar diariamente diferentes links de bandas novas,
descobertas na Europa – o continente-sonho de Julia. E ela amava tudo (ou quase
tudo) o que ouvia. E queria saber mais sobre aquele moço quieto que conhecia
tanta coisa bacana. O problema era que ele estava no mesmo continente das
bandas descobertas. Enquanto Julia continuava habitando uma cadeira em um
escritório de São Paulo, sem ter tanta certeza que a promoção recebida há
alguns meses – tão festejada na época – era mesmo a melhor coisa para a sua
vida naquele momento.