terça-feira, 30 de julho de 2013

Gonna get better

Julia gostava de música como mulher gosta de chocolate em TPM. Muitos momentos da vida para ela tinham trilhas sonoras. Ainda que os acontecimentos tivessem ocorrido em silêncio ou em um barulho infernal, ou com muitas pessoas conversando ao mesmo tempo. Para aquela época boa da pré-adolescência, ela lembrava de uma música brega do Jon Secada. Não tem importância o fato de o primeiro beijo ter acontecido atrás da escola, ao som do caminhão de gás. Assim como a oitava série, para ela, tinha a lembrança de Mr Jones, do Couting Cross. “When everybody loves you / You can never be lonely” era o melhor trecho, que ela descobriu o significado após ver o dicionário.

A memória auditiva e afetiva seguiu acompanhando a jovem adolescente, que se tornou uma adulta que sentia conforto ao ouvir algumas trilhas sonoras. Sentia-se amparada por alguns CDs, e gostava de repetir como mantras alguns refrães que eram mantras de fato “nothing is gonna change my world”, dos Beatles.

Ela aprendeu a amar Beatles tardiamente, e com uma forcinha das releituras gravadas para a trilha sonora do filme "I am Sam". “Two of us” tinha a letra que ela sonhava para um relacionamento que ela considerava perfeito. E a voz do lindíssimo Eddie Vedder com “You´ve got to hide your love away” parecia abraçá-la quando ela se culpava por não conseguir terminar um texto que deveria ter sido entregue no dia anterior.

Mas tinha uma música que Julia tinha até medo de ouvir. Era “Fidelity”, de Regina Spektor. “I´ve never loved nobody fully / Always one foot on the ground” era a descrição dela própria e de seu modo de agir com esse terreno tão amedrontador. “And I protected my heart trully” era a coisa mais verdadeira a respeito de si própria que ela já tinha ouvido em uma música. E ela de verdade ouvia todas aquelas vozes na cabeça, tal qual a música dizia em inglês, e se perguntava quando é que ia viver uma história linda, não como a de novelas ou contos de fada, mas talvez como a dos filmes bacanas e, melhor ainda, como a que as amigas estavam vivendo.


No meio de tantas vozes, Luis descobriu que Julia gostava de música. E passou a compartilhar diariamente diferentes links de bandas novas, descobertas na Europa – o continente-sonho de Julia. E ela amava tudo (ou quase tudo) o que ouvia. E queria saber mais sobre aquele moço quieto que conhecia tanta coisa bacana. O problema era que ele estava no mesmo continente das bandas descobertas. Enquanto Julia continuava habitando uma cadeira em um escritório de São Paulo, sem ter tanta certeza que a promoção recebida há alguns meses – tão festejada na época – era mesmo a melhor coisa para a sua vida naquele momento.

domingo, 20 de janeiro de 2013

O salto


Julia transparecia calma e equilíbrio. Equilibrada, de fato, ela era. Mas sua calma era apenas aparente. Os gestos educados e o tom de voz baixo escondiam um turbilhão de dúvidas multiplicadas pela ansiedade que volta e meia invadia seu peito, especialmente em situações nas quais não era mais possível ter nenhum controle. Como os relacionamentos afetivos.

Todos diziam que ela era bonita e inteligente. Teve dois grandes amores na vida. Com o primeiro deles, nutriu ódio, rancor e, por último, desprezo, quando percebeu que não valia mais a pena cultivar nada. Por outro, nutriu algo muito mais platônico do que prático. Via sinais em tudo, mas não queria transparecer nada, porque acreditava já ter sofrido tudo o que podia com o amor anterior.

A vontade de não transparecer nada prevaleceu e, claro, o segundo amor virou amigo, como tantos outros amores possíveis que entraram em seu círculo de amizades. Julia sempre foi boa ouvinte, e descobria que tinha perdido o amor possível quando os candidatos começavam a confidenciar sobre outras mulheres. Engolia a seco, mas seguia ouvindo. Enquanto isso, martelava-se mentalmente sobre mais uma derrota. Mais um amor perdido, mais uma amizade no seu círculo.

Distribuía conselhos entre as amigas, que sempre a procuravam. Mas quase nunca usufruía de suas próprias dicas. Tal qual um padre que celebra muitos casamentos, Julia sabia de vários sinais que indicariam se as relações teriam futuro ou não. E já havia se conformado com um celibato, tal como os padres. Já estava acreditando que não encontraria alguém que a dissesse as coisas lindas que gostaria de ouvir. Que a mandasse flores e que dissesse que a amava – isso nunca havia acontecido com Julia. E essa era outra dor que ela engolia a seco, em cima de um salto imaginário que a levava pra longe e para o alto. Tão alto que ninguém a alcançava.