sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Copos


Luis era considerado muito inteligente por qualquer pessoa que o conhecesse e reunia todos os atributos visíveis para isso. Era bom de matemática na época da escola, tirava as melhores notas na faculdade e se tornou um profissional muito bem sucedido em uma área dominada pelos famosos nerds: a computação. Na realidade, o nome certo era Tecnologia da Informação, TI ou IT no exterior. Mas, para a família e os amigos leigos, continuava sendo computação.

Gostava de festas e de estar entre pessoas. Mas não conseguia fazer amigos com facilidade. Era quieto, tímido, e pensava muito antes de falar – como todos os quietos e tímidos. Achava que uma câmera brotaria do chão assim que ele falasse uma bobagem, transmitindo mundialmente a asneira dita, ou a piada sem graça. Por isso, pensava antes de dizer uma frase em uma turma maior. Pensava tanto que não dizia. De tanto pensar, geralmente via outras pessoas arrancarem risos da turma ao falarem exatamente o que ele tinha pensado. E se martirizava ainda mais pela timidez idiota.

Tanta vergonha escondia um rico conteúdo, adquirido com leitura, filmes, músicas e viagens. Os poucos (e bons) amigos sabiam de tudo isso, e os melhores não zombavam desse traço. Começar era difícil, todos sabiam. Então, o melhor jeito de se preparar caso arriscasse um começo (de conversa, de olhar, de história) era ter conteúdo. Em algum momento, isso daria certo.

Pra piorar, bebia pouco. Não conseguia passar de um copo de qualquer drinque. Uns goles a mais de cidra em uma passagem de ano, durante a adolescência, o traumatizaram contra os efeitos do álcool dali em diante. Então, para não ser pressionado, preferia ficar com um copo só a noite toda.

Mas naquela festa, via que copos não eram problema para Julia. Aquela moça de traços delicados sabia a arte de esvaziá-los sem perder a compostura. Transitava por toda a festa, parecia conhecer a maioria dos convidados, ria, dançava, e até com ele ela já tinha conversado.

Julia também sabia que começar uma conversa era difícil, uma arte para poucos. Sua família dominava essa arte. O que a levou a aprender a puxar papo quando necessário. Ela também sabia o que era ser considerada tímida, especialmente perto dos parentes faladores. Aliás, era até mais cômodo parecer quieta perto deles. A disputa seria desleal.

No entanto, aquela festa não era dominada pelos parentes, e sim pelos amigos de Luis e Julia. Ambos sabiam um do outro. Mas disfarçavam. E Julia perguntava a Luis sobre coisas das quais ela já tinha conhecimento. Queria dar a chance àquele moço bonito, educado e bem arrumado (especialmente naquela festa) de contar um pouco de sua vida. Trocaram algumas palavras, até alguém chamar Julia para outra roda de conversa.

Enquanto isso, Luis se arrependia de não ter dado respostas mais elaboradas, que poderiam prender a moça de cabelos encaracolados mais alguns minutos diante de seus olhos.

O cartomante


Tal qual a cartomante que mudaria a vida de Macabéa em “A Hora da Estrela”, o adivinho estava disposto a ter a atenção de Julia naquela manhã. A moça tinha olhar sonolento, mas preocupado, e uma aura de quem estava tensa e precisando de cuidados. Parecia estar chegando aos 30, e com esse olhar, tinha o perfil típico de quem procurava os trabalhos que ele prestava. Será que já tinha casado? Mulher que não casou até essa idade também gosta de procurar cartomantes. E arriscou pedir uma informação para a moça.

“Por favor, aonde fica a estação Trianon?”, ouviu Julia. Ela estranhou a pergunta, porque ele estava quase em frente à estação, e começou a balbuciar uma resposta, até ouvir uma saraivada de perguntas com respostas. “Você tem uma santa muito bonita na cabeça, mas você é infeliz no amor, não é? É sim, a gente vê. Você foi traída, não está com quem ama, perdeu ele pra outra e sua mãe está doente”.

Aquela metralhadora verbal não fazia sentido para a moça, que não abandonava a expressão blasé. O que foi o fim para o Cartomante. “É uma pena que vocês não acreditam na gente. Cuide de sua mãe, ela precisa. E você precisa fazer um trabalho pra sua vida se abrir para o amor”. A expressão de Julia mudou e ela teve vontade de enfiar o guarda-chuva na cabeça do Cartomante. Mas limitou-se a dizer: “A estação Trianon a alguns passos daqui. Tenha um bom dia”.

Apesar do olhar blasé, algumas coisas ecoaram no peito de Julia naquela manhã. Era fato que ela não tinha um amor e que ela já havia sido traída. Mas quem nunca foi traído na vida, especialmente perto dos 30?

Naquele dia, Julia fez um desafio para o universo. Se nada em sua vida acontecesse em um mês, ela procuraria um cartomante. Mas não aquele picareta, que tinha roubado sua paz. 

domingo, 21 de outubro de 2012

Pé no chão


Julia não sonhava em ter um carro. Até já quis comprar um, mas não via utilidade – pelo menos não com a vida que levava hoje. Não tinha grandes problemas em utilizar transporte público. Não via grandes absurdos em se espremer em ônibus ou metrô. Não achava bonita aquela superlotação, é fato. No fundo, aquele era o seu pé no chão diário. Quanto mais avançava na carreira, mais queria sentir de onde vinha.

Ouvira em uma palestra, dias atrás, que uma pessoa passa a vida brigando ou confirmando a própria história. Antes de ouvir esta frase, Julia já havia escolhido a segunda opção. Um pouco por orgulho da própria trajetória. E outro pouco para se posicionar. Se for para alguém debochar, que seja eu mesma, pensava. E ninguém mais ousava falar sobre a distância do bairro no qual ela morava, da escola pública na qual estudou ou da pouca escolaridade dos pais. Ela mesma imprimia o posicionamento sobre a própria vida.

Tanto conhecimento empírico a fazia questionar sobre o que era ensinado na vida acadêmica. Via e ouvia tanta bobagem dos andares de cima que se perguntava, quase diariamente, de que valia tanto tempo perdido em salas de aula. Talvez por isso não tivesse escolhido fazer uma pós-graduação, mesmo depois de tanto tempo formada.

Sua vida era uma incógnita para os vizinhos mais próximos. Cordial, educada, mas nunca aberta a diálogos que ultrapassassem o “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”. Ou o “como vai sua mãe?”, sempre respondido com um “está bem, graças a Deus”. Ele, o Todo Poderoso, era a senha para que os passos rápidos não fossem quebrados.

Sonhava sim. Mas já achava que os sonhos não tinham mais lugar no mundo em que vivia. Ela, talvez, já não tivesse mais lugar naquele mundo. Tal qual a Macabéa de Clarice Lispector, via-se em uma existência compulsória. Pensava umas bobagens, as transformava em piada no Facebook e seguia a vida. Sem saber para onde. Sem saber porquê.

Até um cartomante cruzar seu caminho em uma manhã nublada, fria e estranha.

sábado, 20 de outubro de 2012

De novo

A gente mal consegue atualizar um blog e resolve criar outro quando (quase) ninguém mais lê um. Pensando bem, que ótimo!

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Aviso express: este espaço será dedicado à ficção. Qualquer semelhança é pura fonte de inspiração.