Julia não sonhava em ter um carro. Até já quis comprar um,
mas não via utilidade – pelo menos não com a vida que levava hoje. Não tinha
grandes problemas em utilizar transporte público. Não via grandes absurdos em
se espremer em ônibus ou metrô. Não achava bonita aquela superlotação, é fato.
No fundo, aquele era o seu pé no chão diário. Quanto mais avançava na carreira,
mais queria sentir de onde vinha.
Ouvira em uma palestra, dias atrás, que uma pessoa passa a vida
brigando ou confirmando a própria história. Antes de ouvir esta frase, Julia já
havia escolhido a segunda opção. Um pouco por orgulho da própria trajetória. E
outro pouco para se posicionar. Se for para alguém debochar, que seja eu mesma,
pensava. E ninguém mais ousava falar sobre a distância do bairro no qual ela
morava, da escola pública na qual estudou ou da pouca escolaridade dos pais.
Ela mesma imprimia o posicionamento sobre a própria vida.
Tanto conhecimento empírico a fazia questionar sobre o que
era ensinado na vida acadêmica. Via e ouvia tanta bobagem dos andares de cima
que se perguntava, quase diariamente, de que valia tanto tempo perdido em salas
de aula. Talvez por isso não tivesse escolhido fazer uma pós-graduação, mesmo
depois de tanto tempo formada.
Sua vida era uma incógnita para os vizinhos mais próximos.
Cordial, educada, mas nunca aberta a diálogos que ultrapassassem o “bom dia”, “boa
tarde”, “boa noite”. Ou o “como vai sua mãe?”, sempre respondido com um “está
bem, graças a Deus”. Ele, o Todo Poderoso, era a senha para que os passos
rápidos não fossem quebrados.
Sonhava sim. Mas já achava que os sonhos não tinham mais
lugar no mundo em que vivia. Ela, talvez, já não tivesse mais lugar naquele
mundo. Tal qual a Macabéa de Clarice Lispector, via-se em uma existência compulsória. Pensava umas bobagens, as
transformava em piada no Facebook e seguia a vida. Sem saber para onde. Sem
saber porquê.
Até um cartomante cruzar seu caminho em uma manhã nublada,
fria e estranha.
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